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Arqueologia / Epigrafia

Arqueologia

Os mais antigos vestígios de ocupação humana na zona leste trasmontana remontam ao período Paleolítico, materializados em raros artefatos de pedra lascada e gravuras rupestres. Estas foram detetadas, até à data, na bacia do rio Sabor (Grijó de Parada e Milhão, em Bragança; Ribeiro da Sardinha, em Felgar, Moncorvo) e vale do Douro (Mazouco, em Freixo de Espada à Cinta).

Com o Neolítico, a chamada era da pedra polida, as comunidades humanas iniciam a prática da agricultura e da pastorícia. Desta fase encontraram-se importantes vestígios no sítio arqueológico do Buraco da Pala (Mirandela) com ocupações desde o Vº milénio a.C. até ao final do Calcolítico (final do IIIº milénio a.C.). Da fase neolítica do Buraco da Pala recolheram-se peças lascadas em quartzo e sílex, lâminas e micrólitos, machados polidos e pequenos vasos cerâmicos, associados a grãos de trigo, cevada, favas e ervilhas). O modo de vida destas populações, baseado na pastorícia e em algumas práticas agrícolas, era necessariamente complementado pela caça e recoleção.

Já na fase final do Neolítico surgem os característicos túmulos coletivos chamados mamoas (câmaras funerárias cobertas de terra) de que se conhecem alguns exemplos no distrito de Bragança (Donai, Bragança; Pena Mosqueira, Mogadouro) e as antas ou dólmens de Vilarinho da Castanheira e Zedes (Carrazeda de Ansiães). Contudo os enterramentos também se podiam fazer em grutas, como na Lorga de Dine (Vinhais) ou gruta de Ferreiros (Vimioso).

A partir do IIIº milénio a.C. inicia-se a Idade dos Metais, cujo primeiro momento é designado por Calcolítico (idade do Cobre). Nesta fase, também na nossa região se verifica uma intensificação do modelo agro-pastoril conduzindo a uma proliferação de habitats e de vestígios, em cavidades, como na Lorga de Dine, em abrigos sob rocha, ou em pontos altos, preferencialmente em cumeadas ou esporões rochosos. Foi nessa diversidade de locais que se recolheram, desde o século XIX, inúmeros machados e enxós de pedra polida, fragmentos de cerâmica decorada, alguns recipientes cerâmicos completos (Lorga de Dine), pesos de tear, moinhos manuais, e diversos outros utensílios de pedra e em cobre, alguns dos quais pertencentes à coleção do Museu do Abade de Baçal.

Desconhecemos as crenças religiosas destes povos, mas supõe-se que a arte rupestre (pinturas e gravuras) de vários abrigos rochosos (Serra de Passos, em Mirandela; Penas Róias, em Mogadouro; Solhapa, em Miranda do Douro; etc.) ou rochedos (Cachão da Rapa, Carrazeda de Ansiães), poderiam corresponder a santuários. Na freguesia da Bouça (Mirandela) existe um menir fálico decorado, que se pode relacionar com os cultos da fertilidade do neolítico final. Este tipo de manifestações parece culminar na ereção de estelas antropomórficas, como as que se encontraram no vale da Vilariça (Couquinho e Vila Maior, em Torre de Moncorvo; Cabeço da Mina, em Vila Flor; Santa Luzia, em Freixo de Espada à Cinta).

A partir do IIº milénio a.C., no decurso da Idade do Bronze, uma maior complexidade social e competição territorial, terá ditado a construção dos primeiros povoados fortificados, ligados à necessidade de defesa dos recursos naturais, onde se incluem os minerais, como o ouro, prata e o estanho (este era adicionado ao cobre para o fabrico do bronze). A região conheceu certamente uma grande importância neste período, como o documenta a excelente coleção de objetos em bronze, com destaque para as célebres alabardas de tipo Carrapatas (Macedo de Cavaleiros), de que apareceram outra análogas em Abreiro (Mirandela) e Alto das Pereiras (Vimioso).

A transição para a Idade do Ferro ocorre ao longo do 1º milénio a.C., sobretudo a partir do séc. V a.C., até à chegada dos romanos. O maior incremento da fortificação dos povoados, marca característica do noroeste da península Ibérica, ditou o conceito de “cultura castreja” (“castro” = lugar fortificado). Estas sociedades, organizadas em clãs e unidades tribais, prosseguiam o modo de vida agro-pastoril, complementado pela caça e pesca e diversas atividades artesanais, em que se incluiria a metalurgia. Contudo, o trabalho do ferro devia restringir-se às zonas onde havia minérios ferrosos mais ricos, sendo o bronze ainda o principal metal em uso.

Neste período, no atual território bragançano, destacam-se duas grandes unidades socioculturais: os Zoelas, a norte, e os Banienses na zona de Moncorvo. Deste período, na coleção do Museu, destacam-se objetos de bronze, nomeadamente uma coleção de machados, e peças de adorno como braceletes e ainda uma fíbula em ouro proveniente do território do atual município de Macedo de Cavaleiros, assim como várias esculturas zoomórficas (berrões) em granito, reveladoras de uma cultura específica comum a outros povos da meseta (Vettones).

A conquista do noroeste peninsular, ao longo do século I a.C., trouxe consigo profundas alterações na paisagem, no habitat, na economia e na estrutura social e política das sociedades proto-históricas.

Os “castros” (povoados fortificados indígenas) deram lugar a formas de povoamento mais diversificadas, estreitamente relacionadas com a rede viária em desenvolvimento, com a intensificação da tutela de uma nova administração, da exploração mineira e com o desenvolvimento da economia, a qual se passa a integrar na rede comercial romana – por exemplo, o escritor romano Caio Plínio, na sua Naturalis Historia, refere-se ao linho de qualidade que os Zoelas (ou Zelas) exportavam para Roma. Noutra passagem, especifica que estes Zoelas eram uma etnia dos Ástures, cuja civitas ficava na Galécia. A descoberta de uma inscrição (infelizmente destruída no séc. XIX) em Castro de Avelãs (próximo de Bragança) em que uma circunscrição administrativa dos Zoelas (Ordo Zoelarum) dedica uma ara ao deus Aerno, permitiu localizar aqui a sede deste importante povo.

A Pax Romana instituída pelo império marca a evolução da economia de subsistência para uma economia de mercado baseada em cidades, com generalização da circulação de moeda e uma nova reorganização territorial e social. Isto exigiu a criação de uma cada vez mais complexa rede viária para a circulação do exército e de bens e mercadorias. Desta rede viária são provenientes os marcos miliários que pertencem à coleção do Museu, os quais continham informações relativas à via onde estavam colocados e informação sobre a distância ao Fórum Romano.

A epigrafia romana, e mais especificamente a do povo Zoela que habitava a região de Bragança, é também bastante significativa na coleção do Museu. O conjunto numeroso de achados é representativo da existência de elites locais com poder económico que lhes permitia mandar esculpir este tipo de objeto funerário, ele próprio símbolo de distinção social. Os achados são tendencialmente provenientes de núcleos de povoamento, com especial incidência nas zonas de Castro de Avelãs – onde predomina a utilização de granito – e do Planalto Mirandês, onde para além do calcário é também possível observar a existência de estelas em mármore de Santo Adrião (Vimioso). Da análise da forma e decoração destas peças, ressalta-se a sua leitura tripartida: a cabeceira, como símbolo astral, simbolizando a fonte da Vida; a base, como o mundo terreno, e entre eles, a mensagem funerária, que representa a comunidade em que se insere o defunto, traço de reafirmação da importância da estrutura familiar e de linhagem.